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sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Fim Anunciado por Bernardo Lupi & Filipe Seems


- Bem vindo, Filipe Seems, ao Pavilhão da Límpida Solidão. Fizeste o teu percurso pelo Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. Estás agora no coração das fábulas, agora podes encontrar a raiz de tua história.

- Minha história? Porquê? Porquê eu?

- O plano da conspiração é aberto, e faz interferir na teia de uma ficção seres de outra ficção, de uma ficção anterior...

- ...tudo é ficção, Filipe Seems, acaso e destino, labirinto e jogo.

- Mas... as gémeas, qual é a história delas? E onde eu entro nisso?

- São mil e um os caminhos das fábulas.

- Como?

- Em cada história, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras. Nesta uma delas te procurou, e tu foste iludido e chegaste ao Jardim. Noutras, terás sofrido um acidente, concluído o caso, ninguém terá te procurado jamais...

- O que é a conspiração?

- Não procures uma resposta. Encontra o espaço de uma pergunta maior. Se és realmente um detective, procura o enigma, não a solução. Lembra-te: todos os seres humano são uma obra única; com sua história pessoal, seu percurso no Jardim dos Caminhos. Personagens de ficção encontrando outras personagens, ficções originando outras ficções. Numas somos narradores, noutras somos narrados, numas somos corpo, noutras somos sonho, fazendo fluir nossa história dentro da história do mundo.

- Ah…

- Os homens necessitam de fábulas. E não há destino mais nobre do que povoar o mundo com personagens de fábulas.

Filipe Seems é um detective privado que vive em Lisboa. As suas aventuras começam quando Ana Lógica, uma fotógrafa, lhe traz uma fotografia de uma rapariga igual a ela, que naturalmente quer saber quem é. Esta não é apenas uma história policial, mas uma incursão por caminhos improváveis e uma reflexão sobre a própria existência.
Os autores, António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva, começaram esta banda desenhada em 1992, no jornal SE7E. No ano seguinte, as aventuras de Filipe Seems eram publicadas pela Asa. Três volumes e muito sucesso depois, a editora lançou recentemente uma caixa com os três trabalhos dos autores.
Não consegui escolher um trecho da ficção que melhor reflectisse as motivações que me levam a encerrar as portas do motel. Não vou proceder a grandes explicações. Prefiro enveredar por um caminho onde os mundos virtuais se resumam ao mínimo essencial. Os mais inteligentes (sim, porque apenas esses me interessam) compreenderão o real significado do texto. Agradeço a todos os que por aqui passaram e me agraciaram com os seus comentários. Sou daqueles que nunca diz nunca e assim sendo despeço-me com um até já ou até sempre...


domingo, 11 de outubro de 2009

Sinceridade


- Gosto do belo onde o encontro - disse-me. - Acho que é uma injustiça ligar-me a uma única pessoa. Penso, em teoria, que o casamento é a instituição mais tirânica da sociedade. Como é que um homem de honra ousa oferecer o que não depende só da sua vontade? Em geral, nunca se deveria prometer nada. A senhora não encontrará ninguém que possa dizer-lhe que eu alguma vez prometi seja o que for a alguém. Nem sequer prometo ir a um jantar quando sou convidado, limito-me a informar que recebi o convite. Nunca faço apostas e nunca jogo. O acaso é uma força demasiadamente grande para lhe dar hipóteses de me vencer. E é por isso que nunca prometerei a uma mulher ficar-lhe fiel. Ela deve aceitar-me como sou. Se condescender em partilhar o meu coração com outras, encontrará aí lugar bastante. Eis a razão pela qual nunca fiz uma declaração de amor a uma mulher. Espero sempre que ela me diga simples e francamente se lhe agradei o bastante para que já não tenha nada a recusar-me.

Wilhelmine Schroeder
in Memórias de Uma Cantora Alemã

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O


A História de O, da autora francesa Pauline Réage, é uma novela sadomasoquista que veio a público poucos anos antes da morte da autora. Publicada em 1954, em francês, é uma fantasia de submissão feminina de uma fotógrafa parisiense de moda que é vendada, acorrentada, chicoteada, marcada com ferro em brasa, obrigada a usar máscara e ensinada a estar sempre disponível para o sexo oral, vaginal e anal. Trata-se de um clássico do género erótico na linha de Venus in Furs , pois o sadomasoquismo é o seu ponto forte. É sobre uma jovem que no início joga como dominada, mas quanto mais resiste à tortura, mais gosta de ser escrava. Em Fevereiro de 1955, o livro ganhou o prêmio francês de literatura Prix des Deux Magots, embora isso não tenha evitado que as autoridades francesas acusassem o editor de obscenidade. As acusações foram rejeitadas pelos tribunais, mas um boicote publicitário ocorreu durante longos anos. Isso porque a sociedade não teve a cabeça suficientemente aberta para entender os caminhos que a sexualidade pode tomar nos seus momentos mais obscuros. Há dias atrás, aproveitei para reler algumas partes desta obra num local público durante a minha hora de almoço e, acreditem que às tantas dei por mim a olhar sobre o ombro para ver se alguém estava a reparar na minha leitura, tendo em conta alguns trechos verdadeiramente escabrosos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Quando os Livros Imitam a Vida

Donald, com um olhar maroto, disse para Elena:
- A nossa conversa é uma forma de permuta. Tu e eu vivemos em regiões do mundo sensual onde reina a loucura. Tu atrais-me para o maravilhoso. O teu sorriso tem um poder hipnótico.

Anais Nin in Delta de Vénus

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lisbeth Salander


Nos últimos tempos, tenho andado embrenhado na leitura da trilogia Millenium do sueco Stieg Larsson. Três magníficos livros que prendem a nossa atenção do princípio ao fim, num excelente exercício de literatura policial ao mais alto nível.
Estou completamente fascinado por uma das personagens principais, Lisabeth Salander, uma jovem hacker com uma personalidade misteriosa que oscila entre uma força selvagem e a extrema debilidade emocional. Existem personagens pelas quais nos apaixonamos e este é um desses casos. Apenas fiquei surpreendido pelo facto de julgar que nem apreciava assim tanto mulheres com tatuagens e cravejadas de piercings.
Aguardo ansiosamente pela estreia da adaptação do primeiro volume da trilogia, Os Homens que Odeiam as Mulheres, no início do Outono.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Conceitos


O acto carnal entre mulheres é um absurdo biológico. É impossível. O erotismo faz imediatamente dessa invenção uma realidade. Sodomizar é um desafio à natureza, e no entanto, o homem sodomiza. Fazer a amor a cinco não é natural, no entanto o homem imagina-o, dispõe-o e realiza-o. E cada uma destas vitórias é bela. Como é óbvio, para se expandir o erotismo não se necessita forçosamente destas fórmulas de excepção. Exige, apenas, juventude e liberdade de espírito, o amor à verdade, uma pureza que nada deva aos costumes e às convenções. O erotismo é uma paixão que requer valentia.

Trecho do livro Emmanuelle de Emmanuelle Arsan

domingo, 26 de julho de 2009

Literatura Erótica a Preço de Amigo


A revista Visão lançou uma colecção de seis livros eróticos de alguns autores da literatura mundial.

O primeiro livro, Emmanuelle, de Emmanuelle Arsan, foi lançado no passado dia 23 de Julho com o preço de 0,50. Os restantes livros serão vendidos a 1,90 cada.

Fanny Hill, de John Cleland (30 de Julho)
História de O, de Pauline Reage (6 de Agosto)
Justine, de Marquês de Sade (13 de Agosto)
Delta de Venus, de Anais Nin (20 de Agosto)
Memórias de uma Cantora Alemã, de Wilhemine Schroede (27 de Agosto)

domingo, 21 de junho de 2009

Mulheres Marcantes


- Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré 'Parda Flora', em Buenos Aires.
- Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
- Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre. Em toda a parte.
Corto Maltese

domingo, 3 de maio de 2009

A Metafísica do Sexo


Julius Evola (Roma, 19/05/1898 - 11/06/1974), Homem Livre por excelência e expoente máximo da defesa da Tradição Integral, é hoje grandemente desconhecido do público, tendo menos de meia dúzia de obras traduzidas para português, quando a sua bibliografia ultrapassa substancialmente as cinco dezenas de páginas A4 impressas em letra pequena.
Em 1958 publica «Metafísica do Sexo». Evola estuda a função significativa do sexo masculino e feminino à luz das doutrinas tradicionais do oriente e do ocidente. A tese avançada por Evola é que o mundo moderno quebrou as verdadeiras potencialidades transcendentes do homem e da mulher. Trata de reabilitar-se a verdadeira metafísica do sexo, ou seja, reencontrar a unidade na diferenciação ontológica dos sexos e da verdadeira sexualidade. Argumentado sobre sólidas leituras que tratam da sexualidade – nomeadamente «Sexo e Carácter» de Otto Weininger –, «Metafísica do Sexo» representa uma das obras capitais de Julius Evola.

Julius Evola - A Metafisica Do Sexo Julius Evola - A Metafisica Do Sexo Muskaria

terça-feira, 7 de abril de 2009

Reviver Lisboa


Batida que está a zona do Conde Redondo, passo a outro lado da cidade. Atravesso a Duque de Loulé e observo o movimento nas portarias do Night and Day, do Gallery e do Confidencial. Muito próximo, o cinco estrelas da noite lisboeta, o conhecidíssimo Elefante Branco. Porteiros e arrumadores de carros a postos, a noite está quase a atingir o auge, vêem-se mulheres de sonho sair acompanhadas de executivos, já com a gravata de lado. Estes casais não vão para as pensões rascas, o destino são as residenciais de luxo, com quartos espelhados e bar, e que custam mais de três contos, fora o prazer. Esse, nunca inferior a quinze brasas. Quando se trata de um cliente antigo, não usam preservativo e cobram só dez, ou então vão com os clientes para os quartos de hotel. Esta zona é de elite e tem de pagar-se como tal, porque elas também são cinco estrelas. Inevitavelmente passo em frente à Cave Velha e desço a António Augusto de Aguiar para ver de perto o vai-vem do Hipopótamo, outra das melhores e mais deslumbrantes casas nocturnas da capital, tudo la finesse, clientes e mulheres. Há quase uma hora que ando nisto, mulheres a entrarem nos carros dos clientes, mulheres a saírem das boites, homens com os olhos ávidos de sexo, alguns têm idade de ser pais da companheira alugada por instantes, e outros até mesmo avós. Ninguém repara.

João Pina in Dor de Corno (1995)

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Sexo Como Factor de Génio

O facto de o sexo desempenhar um maior ou menor papel na vida de alguém parece relativamente irrelevante. Algumas das maiores realizações de que temos notícia foram empreendidas por indivíduos cuja vida sexual foi reduzida ou nula. Em contrapartida, sabemos pela biografia de certos artistas - figuras de primeira grandeza - que as suas obras imponentes nunca teriam sido realizadas se eles não tivessem vivido mergulhados em sexo. No caso de alguns poucos, os períodos de criatividade excepcional coincidiram com períodos de extrema licença sexual.

Henry Miller in O Mundo do Sexo