segunda-feira, 6 de julho de 2009

O Solitário I


Eram três e vinte da madrugada. Após uma saída rápida com um cliente, Natália tinha regressado à boite para saber se a Telma, a colega com quem dividia o apartamento, iria embora consigo. Ela já não estava lá. Como faltavam apenas vinte minutos para que as raparigas fossem dispensadas, sentou-se junto de algumas delas para conversar trivialidades. No balcão, solitário, encontrava-se um senhor distinto, com um fato de bom corte e o cabelo já um pouco grisalho. No máximo, teria uns quarenta e cinco anos. Não tirava os olhos de Natália, que instigada pelas outras raparigas, foi ao seu encontro.
Ele pediu uma garrafa de champanhe, convidando-a a fazer-lhe companhia. Natália acede ao convite e cumprimenta-o com dois beijos repenicados nas faces.
O diálogo tivera início da forma mais comum. Ele pergunta há quanto tempo ela está em Portugal, se gosta do país, quanto tempo pretendia estar ali e a que região do Brasil pertencia Natália. No entanto, entre todas essas perguntas, introduziu uma cuja resposta imediata o deixou frustrado.
- Gostarias de sair desta vida? - pergunta ele, como se estivesse decidido a tomar alguma atitude para que isso acontecesse.
- Eu tenho objectivos claramente traçados. Só saio daqui quando estiverem todos realizados! - responde-lhe ela friamente.

O homem fica momentaneamente apático. No fundo, ele desejaria ouvir que sair dali seria o maior sonho dela e que estaria à espera de um príncipe encantado para isso. Não sabia ele que, embora ela nunca tivesse sido maltratada físicamente por nenhum cliente, já tinha a plena noção de que ali não existiam príncipes de contos de fadas. Jamais confiaria num homem que quisesse comprar o seu amor com dinheiro. Poderia até ser uma opinião radical, embora a boite estivesse cheia de histórias desse género. Poucas delas tinham um final feliz. Na maioria dos casos, as mulheres, em busca do seu salvador acreditavam em promessas que não foram e nunca poderiam ser cumpridas. Depois, com a agravante do tempo perdido, viam-se obrigadas a regressar ao trabalho com uma auto-estima lastimável, começando, novamente do zero. Os raros casos de sucesso, nunca estavam alicerçados em fantasias mas em bases sólidas e incorruptíveis.
Infelizmente, o amor não era a base da maioria das relações ali construídas. Os clientes apaixonavam-se por mulheres que representavam juventude ou uma fantasia erótica, ao passo que elas renunciavam à sua liberdade em nome de um padrão de vida sem dificuldades financeiras. Quase sempre, eram relações que fracassavam após alguns meses.

No que diz respeito a Natália, o seu coração ainda palpitava acelerado sempre que se deparava com o nome do grande amor da sua vida, no meio daquela turba de clientes. Podiam-lhe comprar breves instantes do seu corpo, mas a sua intimidade era um território inacessível.
- Mas eu posso ajudá-la a cumprir esses objectivos. Que acha? Tenho a certeza que até és uma boa moça e que seríamos muito felizes - responde-lhe António, tentando em vão disfarçar o seu desapontamento.
Mentalmente, Natália já tinha traçado o perfil daquele homem. Era o tipo que se envolvia, prometia dezenas de coisas às raparigas, podendo o consentimento desta ser talvez o prenúncio de um pedido maior. Era um homem extremamente solitário e, apesar de talvez procurar um amor verdadeiro, achava que esse sentimento poderia ser adquirido com dinheiro. Sem qualquer nexo possível, este tipo de pessoa era incapaz de ver que um local com propostas de saídas por dinheiro fosse provavelmente um lugar em que seria impossível encontrar aquilo que procurava.
Para ela, era apenas mais uma chance de facturar mais algum nesse noite. A sorte sorrira para ela, que se habituara a ver os homens como meros cifrões.

- Porque não conversamos sobre isso depois, não acha? - pergunta Natália, tentando desviar o foco da conversa.
- Claro! Tens toda a razão - responde ele, com os olhos brilhantes de entusiasmo.
Era bastante delicado lidar com este tipo de clientes. Natália não era desonesta ao ponto de brincar com sentimentos mais profundos em nome do dinheiro. No entanto, manter-se insensível era uma questão fulcral para o alcance de suas metas. Assim sendo, entrou de caras no assunto que lhe interessava e convida-o para sair. Ele concordou logo e sobem as escadas do Gallery de mãos dadas. Saem para a rua e um dos porteiros corre para ir buscar o carro do cliente que aparentava ser bastante conhecido pelos funcionários da casa. Dois minutos depois, são-lhe entregues as chaves de um reluzente Mitsubishi Pajero preto. Entram na viatura e descem na direcção da Avenida da Liberdade. Estacionam logo depois mesmo ao lado da Estação do Rossio. O António explica que ficava sempre hospedado no Avenida Palace durante as suas visitas a Lisboa. Era um hábito antigo que mantinha, herdado de seu falecido pai, que tinha sido outro grande apreciador do charme daquele hotel centenário.
Ele era um perfeito cavalheiro. Carinhoso, gentil, amável, tentava proporcionar um clima confortável à sua parceira de ocasião.
Ela cumpriu à risca o ritual de sempre: casa de banho, duche rápido e roupão sobre uma lingerie ousada. Não era preciso muito mais que aquilo para que a maioria dos homens ejaculasse em dez minutos. E assim acontenceu naquele fim de madrugada.
Ao despedir-se, ainda com as notas na mão, o António pergunta a ela se poderia ficar com o seu número de telemóvel.
- Sim, claro - responde-lhe ela, deixando o número escrito num bloco de notas em cima da cabeceira. Logo abaixo, assinou: Natália.
Já era sábado de manhã.

Ela acorda com o telefone a tocar. Era uma da tarde em ponto. Não reconhece o número no visor. Hesitante em atender, decidiu falar com quem a procurava àquela hora.
Pressionou a tecla de atendimento, mas não proferiu uma única palavra.
- Estou? Estou sim? - repetia uma voz vagamente familiar do outro lado da linha.
- Alô? Quem fala?
- Olá! É o António - responde uma voz entusiástica.
- Hum...estou aqui. Acabei de acordar - responde ela numa voz pastosa, na tentativa que ele se desculpasse e dissesse que tentaria mais tarde.
- Quero fazer-te um convite. Almoças comigo?

Continua...

1 comentário:

Papoila disse...

Na maioria das vezes não é mesmo o amor que rege qualquer tipo de relação... não só essas.

Gostei
Fico esperando a continuação
;)
Bjs
BF