terça-feira, 7 de julho de 2009

O Solitário II


Natália pensou ter deixado claro que a sua companhia não se estenderia para o dia seguinte, a não ser que recebesse novamente por isso. No entanto, o António fazia-lhe o convite como se estivesse livre de qualquer encargo. Era uma situação muito embraraçosa para ela. Não lhe respondia a nada.
- Tudo bem. Se não queres almoçar, pelo menos toma um café comigo. Estou nas Amoreiras e tenho uma surpresa para te fazer. Podes trazer uma amiga, se quiseres. Assim já te sentirás mais segura - concluiu ele, aguçando a curiosidade dela.
Natália já conhecia aquele centro comercial. Composto por inúmeras lojas, tinha as melhores marcas e era impossível não sucumbir ao impulso consumista e adquirir, ainda que pequena, uma coisa qualquer quando visitava uma superfície comercial. Ainda para mais, ela era oriúnda de Erechim, no interior do Rio Grande do Sul, onde não existiam as atracções que Lisboa lhe oferecia.
- Vamos estar aí no máximo, dentro de uma hora - responde ela.
Obriga a Telma a sair da cama para acompanhá-la. Apanham um táxi no Campo Santana e seguem para as Amoreiras. Ela estava curiosa. Em que é que aquele homem, conhecido há poucas horas atrás, poderia surpreendê-la? A Telma também não conseguia disfarçar a sua curiosidade, mas aconselhava cautela com homens daquele género.

António aguardava-as na área de alimentação. Assim que as avistou, abriu um enorme sorriso, cumprimentando a Natália efusivamente.
- Boa tarde, minha boneca! Dormiste bem? - pergunta, afável.
Ela repara que as suas mãos estão cheias de sacos com embrulhos lá dentro.
- Mais ou menos. Não deu para domir muito...e você?
- Não consegui dormir mais de hora e meia. A tua imagem não me saía da cabeça. Seduziste-me por completo. Por isso, levantei-me cedo e comprei algumas prendas para ti, minha querida - disse, entregando-lhe os sacos.
Insegura sobre se receberia ou não, levou alguns instantes até decidir aceitar as prendas do António. Natália ficou espantada com o conteúdo daqueles embrulhos. Os presentes iam desde um relógio Swatch, um perfume Carolina Herrena, uma camisola Benetton e até uma jóia. Tudo das melhores marcas e qualidade. Era a primeira vez na vida que recebia prendas daquele claibre. Nem sabia como reagir. Tinha medo que o facto de aceitar pudesse significar para ele qualquer esperança de sentimentos correspondidos.
- Não te proecupes. Isso não está incluído em nada - amenizou ele, demonstrando segurança de que eram apenas recordações. Sem segundas intenções.
Tomaram café, conversaram e caminharam de mãos dadas como se fossem namorados a sério. Um pouco depois, despedem-se numa das saídas do centro comercial lisboeta.

O António não morava em Lisboa. Era alentejano e engenheiro agrónomo de formação. Herdara vastas propriedades rurais no distrito de Évora, que administrava e lhe proporcionavam uma vida muito confortável. Aparecia na capital duas a três vezes por mês. Sempre que ia a Lisboa, hospedava-se no Avenida Palace e contratava os serviços de Natália. Nos outros dias, fartava-se de enviae mensagens para o telemóvel dela, a declarar toda a sua paixão. Oferecia a ela grandes somas para estar com ele todo o mês, especulava sobre o valor dos objectivos que Natália tinha em Portugal e propunha-se a resolvê-los, caso ela aceitasse viver com ele. Falava insistentemente em casamento e vida em comum. A situação tornava-se insustentável para ela.
- Mas a minha vida é no Brasil, António! Eu não prentendo viver neste país - respondia ela, na ânsia que ele desistisse da ideia.
- Então vamos juntos para o Brasil! O que não falta por lá são fazendas, plantações e gado para criar! - replicava ele, provocando o desespero na Natália.
Realmente não havia outra forma. Não seria possível continuar a manter contacto com ele porque, embora estivesse a ser sincera, o simples facto de lhe atender o telefone era interpretado com um sinal afirmativo por parte dela. Natália decidiu ser mais dura com ele.
- Olá António, como vai? - pergunta ela, em resposta a mais uma chamada vinda do Alentejo.
- Não consigo viver mais sem ti! Pede-me o que quiseres! Queres um apartamento no Brasil? Dois? Quanto queres receber para viveres comigo? Por favor, responde-me. Estás a ser ingrata...depois de tudo o que te dei. Tu não fazes ideia, mas sou um homem muito rico. Tenho herdades a perder de vista...
- Calma aí! - interrompe Natália indignada - Já que você se diz tão rico e já que é tão apaixonado por mim, dê de presente meu apartamento de luxo em Porto Alegre e minha carta de alforria! Fique sabendo, que o verdadeiro amor não exige nada em troca. Se me ama tanto assim, prove para mim. Resoçva a minha vida, mas não queira comprar meus sentimentos mais íntimos - conclui, completamente esganiçada.
António ouvia mudo cada palavra gritada por ela. Não havia outra forma. Só assim se veria livre dele. Era insuportável aquela cobrança que ele impunha e as suas exigências eram cada vez maiores.
Subitamente e, após aquele telefonema, deixou de ter notícias do António. Pelas contas dela, naqueles meses que tinham decorrido, ter-se-ia encontrado com ele umas dez vezes.
Decorreram quatro meses e António não dera mais sinais de vida. Nunca mais aparecera no Gallery e Natália sentia-se profundamente aliviada.

Decorriam os primeiros dias de Novembro. Anoitecia cada vez mais cedo e os dias tornavam-se cada vez mais frios. Natália está em casa a ler uma revista e sente um pouco de fome. Já eram quase sete horas e lá fora já era noite escura. Calça uns ténis, pega uma nota de cinco euros que mete no bolso das calças e sai de casa. Desce as escadas do prédio, sai e caminha na direcção da pastelaria que ficava nas proximidades. Estranhou ter uma carrinha estacionada mesmo em frente ao seu prédio com três homens de expressões carregadas no seu interior mas acabou por não dar muita importância a isso.
Na pastelaria foi atendida cordialmente, como sempre, pelo sr. Serafim. Pede uma meia de leite e um croissant misto. Olhava distraídamente pela montra da pastelaria. O céu negro parecia bastante carregado e não tardaria a começar a chover. Era melhor ir embora, antes que apanhasse com uma carga de água em cima. Paga a despesa e sai para a rua. Um calafrio percorre-lhe a espinha ao aperceber-se que a mesma carrinha que estava em frente a sua casa, estava agora, estacionada do outro lado da rua. Hesita por breves instantes e ainda pensa voltar para trás. No entanto, a distância até ao prédio onde morava era curta e, decide acelerar o passo nessa direcção. Porém, sente o coração sair quase para fora da boca quando ouve a carrinha arrancar e seguir em marcha lenta no seu encalço. Quer gritar. A garganta está presa e seca demais para isso. Estranhamento, não se via ninguém nas imediações. Um assombro de pavor ensombra o seu rosto, quando a carrinha pára a seu lado, a porta lateral desliza e sai lá de dentro um homem enorme na sua direcção. Acuada, ela encosta-se numa parede totalmente paralisada de terror.
O homem dispara um spray no seu rosto. Natália sente-se sufocar e perde a visão. É arrastada para dentro do veículo que arranca a toda a velocidade.
Natália, a bela gaúcha, nunca mais foi vista...

3 comentários:

Paula disse...

Quando cheguei àquela parte de amor (supostamente) perfeito, até pensei que me tinha enganado no blogue! :p

goti disse...

Hum... que será que lhe aconteceu!!! Ficou prisioneira da luxuria do prazer com o António...hummm, danado ele!!!!!
Belíssimo conto, meu querido Bernardo!!!!
Beijos doces e alegres!!!!

Papoila disse...

enigmatico....
BF_